quarta-feira, 24 de outubro de 2007

No fechar do sinal - O olhar de um garoto pobre sobre sua existência em Salvador

Eu imagino Salvador assim... do jeito que ela passa na televisão... uma cidade bonita... misteriosa. Não sei muito o que pensar não! Minha mãe não me deixa pensar muito. Ela me diz que pensar não enche a barriga de ninguém e, como sou o mais velho dos quatro filhos, preciso ajudar ela as nossa barriga e as de meus irmãos.
Mas me imagino do outro lado da cidade. Fico sonhando como seria trabalhar de manhã, aqui, nessa sinaleira, na avenida Vasco da Gama e, a noite gastar esse dinheiro lá nas boates da orla. Com aquelas luz todas, com aquele monte de gente tudo bonita... bacana... cheia de real... mas só tenho 14 anos e tenho que ajudar minha mãe no sustento de casa.
A "bichinha" é esforçada. Ela dá um sangue retado pra botar comida dentro de casa. Lava as roupas dos outros, toma conta dos filhos dos outros... arruma as casas dos outros e, se sobrar um tempo, ela vai lá pra sinaleira do Dique do Tororó vê se arrumas mais uns trocados pra gente.
Eu queria muito poder ajudar ela a ficar mais em casa, mas hoje não tenho condição. O que a gente ganha é muito pouco. E como não dá pra ir em casa comer, eu tenho que rangar alguma coisa na rua. aí já é mais gasto.
Mesmo assim, levando essa vida díficil, não me vejo fora de Salvador... até porque... eu não conheço outros lugares. Fico o dia todo no trampo. Nem vou mais estudar. Minha vida é aqui. Lavando vidro de carro... fazendo malabarismo. Pedindo um trocado. É o que posso fazer.
Eu não concordo com muita coisa que eu vejo. Mas não entendo muito de política e nem sei se posso reclamar de certas coisa que vejo. Fico sem saber se estou pensando certo. Só sei que eles arrumam alí... dão outro jeitinho aqui... pintam as calçadas, dão uma melhorada na aparência do Dique e não vão pra dentro da comunidade. Entra ano e sai ano e as coisas lá continuam do mesmo jeito. Eu moro lá. Do outro lado da pista... no Dique Pequeno. Alí dentro é tudo esburacado. Lixo tem pouco. O caminhão passa certinho, mas é só isso. Na orla eu vejo tudo pintadinho. Se bem que lá não tá essas Coca-Cola toda não!! Minha mãe fica "virada na porra" por disso.
Ela acreditava muito nesse politico que tá aí, mas ele tá demorando de fazer as coisas. Ele começou a passar aqui, mas "ó pai ó"... lá embaixo não terminou. Eu agora é que tô mais ou menos acreditando. "Neguinho" sempre diz que quando o "Cabeça-branca" morrer tudo vai melhoras na Bahia.
Eu tô aí no aguardo . Eu penso em voltar a estudar as vezes, em sair daqui... em me virar de pra conseguir dinheiro, mas minha mãe já falou que não quer que eu ande com os "desassombrados". Ela diz que vão me usar pras coisas errada, e se eu não morrer pela mão dos polícia... morro depois na mão desses caras, por que são tudo bandido. Eu fico doido pra ir! O dinheiro é bom pra porra!! mas eu fico com medo de Mainha descobri e me dar uma surra aqui no meio da rua.
Meus fins de semana são tudo a mesma coisa. Vou lá pra orla guardar carro. O bom é que dá pra tirar um dinheiro a mais, dando uma lavandinha nos carro. Quando a galera "começa a se picar" e vou pra sinaleira do Iguatemi. Lá é que bomba! Carro "como a porra"! No domingo eu fico mais em casa. Ajudo a deixar a casa arrumada... aliás... todo mundo ajuda. Depois. ou eu eu vou "pegar o baba" ou vou ver meu Baêa jogar! Eu gosto muito de ir na Fonte nova. Fico no meio da Bamor. A Bamor "bota pra lá"... e se for BA-VI então... uma vez teve uma pancadaria retada lá. Eu escutei os cara no carro falando que é coisa de gente besta. É coisa de otário que vê as coisa na televisão e quer fazer igual. Disse que em São Paulo é que rola disso... e que morre gente "pra porra".
Meu pai... não sei. Não sei o que falar. Já faz muito tempo que não vejo ele. Minha ,ãe não gosta de falar disso. Eu sei que ele trabalhava com jogo. Ele representava alguém do Jogo do Bicho. naquela época as coisas eram melhores pra gente. Tinha mais comida em casa. Eu estudava. Queria ser veterinário. Hoje não sei bem o que imaginar pra minha vida. Tudo é tão pouco. A sorte é que minha Mãe divide tudo direitinho. Não dá pra morrer de fome. Ela diz que no ano que vem, assim que meu irmão completar oito anos, ele vai ajudar a botar comida dentro de casa. vai arrumar um ponto pra trabalhar. Aí deve aumentar o dinheiro lá de casa.
Lá é legal. O problema é que, depois que meu pai foi embora, não conseguimos acabar de construir a casa. A cozinha já estava pronta. Tinha o quarto deles que faltava o reboco e o nosso que tava terminando de fechar. Quase que a gente não comia pra conseguir comprar as telhas pra cobrir meu quarto. Nesse quarto dorme eu, o que vai fazer oito anos e o que tem cinco. O que tem dois dorme com minha mãe. Foi um sacrifício grande.
Agora... meu pai... eu acho que ele morreu. Minha Mãe achava que ele tinha outra. Que ele tinha sumido por causa de uma piriguete. Mas um dia ele chegou com um jornal velho, que tinha ppego na casa de uma patroa e tava se acabando de chorar. Eu reparei que tinha uma foto do meu Coroa, mas minha mão não me deixou ver. Acho que se ele tivesse, mesmo tendo outra família, não deixaria a gente nessa situação. Se ele estivesse vivo... acho que nem torceria pelo Bahia. Ele era Vitória roxo. Sempre ia no Barradão e tinha um pôster bem grande do Petkovich, o Pet. Aquele alí eu sei que é brocador!! Hoje ela tá no Santos, né? Acho que torço para o Bahia para não pensar muito em meu pai e pra não ter o mesmo fim que ele.
Eu fico meio perdido por causa dessas coisas. Como seré que eu vou tá amanhã? Será mesmo que eu não vou conseguir acabar meus estudos? Que não conseguir saí dessa? Eu já perguntei pra minha mãe se não dá pra eu voltar a estudar. Ela me diz que seu tiver força pra estudar de noite... mas porra velho.... estudar de noite é foda!! Não tem quem aguente! Eu passo o dia todo embaixo de Sol... de chuva... não escolho tempo pra trabalhar.... fico horas de um lado a outro da pista pedindo esmola... limpando pára-brisa, chego em casa nem consigo comer direito de tanto sono... vou fazer que diabo na escola?! Mas não queria que fosse desse jeito... será que vai ser... sempre assim?